Bibiografia

Querubim Lapa de Almeida, nasceu a 15 de Dezembro de 1925, em Portimão. Ainda criança instala-se com a família no centro de Lisboa, onde habitou diversas residências. Único rapaz entre quatro irmãs, desde cedo se refugia no desenho, demonstrando particular apetência para o detalhe, tanto de observação como de imaginação. O interesse pelas actividades manuais e artísticas leva-o a ingressar, em 1939, na Escola Industrial Afonso Domingues, onde obtém uma sólida formação oficinal em serralharia. Aos quinze anos, ainda aluno desta escola, passa por uma experiência clarificadora, a visita à Exposição do Mundo Português, o grande acontecimento artístico nacional a inaugurar a trágica década de 1940. Adolescente inexperiente, fica especialmente impressionado com a escala da estatuária e dos relevos escultóricos, bem como com os painéis representativos da conquista da cidade de Lisboa, da autoria de Jaime Martins Barata (1899-1970), sentindo um forte apelo perante a monumentalidade das obras e o modo como a exposição se organizava. Este primeiro contacto com a realidade das artes, determina a sua opção pelo ensino artístico, apontando o caminho futuro.

Em 1942, matricula-se na Escola Industrial António Arroio, que tem como diretor o pintor João Maria Falcão Trigoso (1879-1956). Aqui residem as bases da sua preparação artística e da sua tomada de consciência social. Tem as primeiras aulas com Bernardino Trindade Chagas (1881-1958), professor da disciplina de Desenho de Figura. É também aluno de Lino António (1898-1974) na disciplina de Composição, com quem virá a colaborar mais tarde. Na escola, convive com uma geração de jovens artistas, entre eles, os futuros Surrealistas, Marcelino Vespeira (1925-2002), Pedro Oom (1926-1974), Mário Cesariny (1923-2006) e Fernando Azevedo (1923-2002). Enquanto Mestre, Querubim Lapa será herdeiro desta tradição oficinal, a partir de 1955, ano em que começa a lecionar na então Escola de Artes Decorativas António Arroio, designação atribuída a partir de 1948, com a reforma do ensino técnico, e onde permanecerá durante mais de quarenta anos, dirigindo as oficinas de cerâmica. A sua ação pedagógica será fundamental para a modernização dos métodos de trabalho, introduzindo no plano de estudos a noção de metodologia projetual. Adiciona novas tecnologias, como a esmaltagem sobre metais, o azulejo de aresta ou a pintura com engobes, adquirindo um estatuto de referência no ensino da cerâmica em Portugal.

Como aluno, durante a frequência da escola, toma os primeiros contactos com intervenção neo-realista, cuja oposição ao regime Salazarista se materializa sobretudo na escolha dos temas e na recusa da chamada arte oficial, apoiada pelo SNI 1. e directamente associada à primeira geração do Modernismo português. Em 1945, com Pedro Oom e Júlio Gil (1924-2004), expõe pela primeira vez, desenhos e aguarelas no Instituto de Cultura Italiana. Oom empenha-se, através do desenho, na denúncia das assimetrias sociais, contribuindo para avivar esta consciência em Querubim, que no ano seguinte se dedicará à série de desenhos Mendigos, assumindo inequivocamente o discurso Neo-realista. Vendo-se na necessidade de adquirir alguma independência económica, Querubim Lapa aceita o convite para trabalhar com o escultor Joaquim Martins Correia (1910-1999), que solicitara um assistente para o desempenho de tarefas árduas, como montagem e enchimento de moldes. O atelier de Martins Correia será uma verdadeira escola de escultura e formação cultural, onde ainda muito jovem terá o privilégio de conviver com personalidades marcantes em diversas áreas artísticas, como os pintores Luís Dourdil (1914-1989) e Hansi Staël (1913-1961), os escritores Natália Correia (1923-1993) e Ruben A. (1920-1975), entre muitos outros que frequentavam a oficina da Ajuda. O primeiro ordenado será empregue numa viagem a Paris, com duração de três meses, formadora e inaugural de uma longa relação com a cidade e os seus museus. Em 1946, Querubim Lapa conclui o curso da Escola António Arroio e no ano seguinte dá entrada no curso de Escultura da Escola de Belas Artes de Lisboa. Partilha um atelier na Rua Garrett, com os pintores António Ayres (1929-1951) e Daciano Costa (1930-2005), participando no mesmo ano, na XII Exposição de Arte Moderna, organizada pelo SNI, organismo com que não voltará a cooperar, reforçando a sua posição de antagonismo às políticas regime.


1. O SPN (Secretariado de Propaganda Nacional), criado em 1933, foi o organismo público responsável pela propaganda política, informação, comunicação social, turismo e ação cultural, durante o regime do Estado Novo em Portugal. Após a II Guerra Mundial toma a designação de SNI (Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo) e em 1968 passa a designar-se SEIT (Secretaria de Estado da Informação e Turismo), tendo sido extinto em 25 de Abril de 1974.

2. Ver França, José-Augusto - A Arte em Portugal no Século XX, Lisboa, Livraria Bertrand, 1974.

3. Nesta época, em início de carreira, Daciano Costa usou o nome próprio Daciano Henrique, com que assinou muitas das suas pinturas.


 

É chamado a colaborar com Manuel Guimarães (1915-1975), cineasta conotado com o movimento neo-realista, no documentário O Desterrado, curta-metragem sobre a vida e obra do escultor Soares dos Reis (1847-1889), para o qual modela uma série de réplicas da obra do artista. Este trabalho, executado nas oficinas da Tobis Portuguesa, com a assistência de Daciano Costa, permite-lhe conhecer o universo do cinema a partir dos bastidores, dando-lhe a oportunidade de contactar com personalidades como Cottinelli Telmo (1897-1948) e acompanhar a conclusão da rodagem de Vendaval Maravilhoso (1949), a última longa-metragem de José Leitão de Barros (1896-1967), cuja protagonista foi Amália Rodrigues (1920-1999). O Desterrado receberá o Prémio Paz dos Reis, atribuído pelo SNI às melhores curtas-metragens, em 1949.

Paralelamente, Querubim Lapa desenvolve constante atividade como pintor, concluindo nesse ano, As Costureiras, obra posteriormente adquirida pela Fundação Calouste Gulbenkian, tal como a série de desenhos neo-realistas O Circo, realizada entre 1945 e 1948. O Chiado mantinha-se o centro nevrálgico da atividade cultural Lisboeta, ali confluíam os jovens estudantes de Belas Artes, a alta burguesia em busca das novidades da moda e as tertúlias literárias e artísticas reunidas nos cafés. Nos Anos 40, Querubim Lapa, frequentava especialmente os cafés Chiado e Brasileira, onde beneficiou do contacto com artistas da geração anterior, como Eduardo Viana (1881-1967), Almada Negreiros (1893-1970), Bernardo Marques (1898-1962), Jorge Barradas (1894-1971) ou António Soares (1894-1978), entre outros.

Querubim Lapa ao lado de Manuel Cargaleiro, na despedida de Abel Manta como professor da Escola de Artes Decorativas António Arroio, 1956. ©CEQL

Querubim Lapa com Guilherme Casquilho no café A Brasileira, Lisboa,1960. ©CEQL

Na Escola de Belas Artes, a realidade política e metodológica havia-se revelado oposta à conhecida no ensino técnico. Sendo aluno do escultor Leopoldo de Almeida (1898-1975), artista consagrado pelas encomendas oficiais, o trabalho desenvolvido no atelier de Martins Correia, conferiu-lhe larga vantagem em relação aos seus colegas, demonstrando uma desenvoltura e capacidades técnicas acima da média, o que lhe granjeou o respeito do professor. Mesmo assim, não evitará o destino comum à generalidade dos alunos vindos das escolas industriais, reconhecidamente vítimas da discriminação exercida pelo arquiteto Luís Alexandre Cunha (1894-1971) 4., diretor da Escola. Assim, a alternativa era a transferência para a Escola de Belas Artes do Porto, com o objectivo da conclusão das cadeiras equivalentes às leccionadas em Lisboa. Querubim ruma ao Porto, onde permanecerá durante dois anos, como acontecerá com muitos outros nas mesmas circunstâncias, por exemplo, Júlio Pomar (n.1926) ou os arquitetos Victor Palla (1922-2006) e Artur Pires Martins (1914-2000). No Porto, como em Lisboa, os cafés eram locais privilegiados de reunião. Para Querubim, o Rialto era local de estudo, enquanto no Majestic se realizavam tertúlias de amigos. De modo a equilibrar o orçamento e ajudar a suportar as despesas de permanência fora da família, desenhava cartazes e dava explicações de Geometria Descritiva. Aproxima-se do grupo Os Independentes, cujo principal dinamizador foi Fernando Lanhas (1923-2012), participando nas exposições por eles organizadas, grandes responsáveis pela divulgação da arte abstracta em Portugal. Com Daciano e António Ayres, expõe na Galeria da Livraria Portugália, onde Dórdio Gomes (1890-1976), professor de Pintura na Escola de Belas Artes do Porto e participante regular das Exposições Independentes, lhe adquire um desenho aguarelado. Já em 1951, no Salão de Primavera da Sociedade Nacional de Belas Artes, onde havia sido premiado, Almada Negreiros adquirira um dos seus desenhos. Estas aquisições, por parte de artistas consagrados, constituíam importantes incentivos, numa realidade em que o mercado da arte era praticamente inexistente, funcionando como um barómetro que alimentava esperanças futuras. Querubim Lapa regressa à capital, mantendo profícua correspondência com o poeta, mais tarde cineasta, António Reis (1927-1991), de quem se tornara grande amigo. Desta convivência resultará um avivar das tonalidades líricas na sua obra, já visível no quadro Vendedeira de Cisnes, alvo de ferozes críticas entre a ortodoxia neo-realista. António Reis contra-argumentará, reagindo em defesa da obra, uma pintura que marca a rutura com o discurso neo-realista, dando lugar ao universo onírico de cariz mais pessoal, dominante daí em diante. Na conclusão do curso de Escultura, em 1953 (concluirá também o curso de Pintura, em 1978), Querubim Lapa realizará como prova de exame final, o retrato do escritor Mário-Henrique Leiria (1923-1980), ex-aluno da Escola de Belas Artes, de onde havia sido expulso por motivos políticos.

Também a convite de Chorão Ramalho, Querubim criará no mesmo ano o seu primeiro desenho de azulejo de padrão, destinado aos revestimentos do Centro Comercial do Restelo, Lisboa. Tendo sido responsável pela proposta de trabalho inaugural, Chorão Ramalho desempenha um papel fundamental na génese da obra cerâmica de Querubim Lapa, apresentando-o à Fábrica da Viúva Lamego, onde virá a trabalhar longos anos, aí executando as suas primeiras experiências cerâmicas, pintura sobre azulejo e mais tarde, as obras de grande escala.


4.O Cunha Bruto como era conhecido entre os alunos, pelo facto de o então professor da cadeira de Desenho Arquitetónico, reprovar repetidamente os alunos que provinham do ensino técnico (Escola António Arroio e Casa Pia de Lisboa), normalmente pertencentes a estratos sociais mais desfavorecidos, dando prioridade aos alunos vindos dos liceus. Esta descriminação estendia-se às mulheres, não lhes reconhecendo apetência para o curso de Arquitetura.

5. In Revista Arquitectura, nº 49, 2ª série, Ano XXV, Lisboa, Outubro de 1953. Pág.18.


 

A Fábrica, fundada em 1849 e dona de uma larga tradição na azulejaria portuguesa, realizava grandes encomendas para arquitetura, albergando já oficinas privadas de dois ceramistas, Jorge Barradas e Manuel Cargaleiro (n.1927). Querubim executa vários pequenos trabalhos nas oficinas de pintura da Viúva Lamego, entre eles um painel para uma camisaria na Rua do Ouro, encomendado pelo arquiteto Pires Martins, com quem trabalhará várias vezes. Observando as suas qualidades e capacidade de trabalho, Eduardo Leite da Silva, um dos proprietários e gerente da fábrica, convida-o a ocupar também uma oficina privada, adaptando para o efeito um antigo espaço de armazém. Leite da Silva, respeitado pintor azulejar na sua juventude, foi um dos grandes responsáveis pelo incentivo à renovação da cerâmica em Portugal, nomeadamente pelo apoio que prestou aos ceramistas, acolhendo-os e concedendo-lhes espaço de trabalho. Jorge Barradas, pioneiro da cerâmica de autor, é o primeiro a beneficiar desta possibilidade, reconfigurando toda a sua produção artística desde a primeira metade da década de 40, abrindo caminho aos mais jovens. Sendo um autodidata, Barradas terá que superar substanciais questões técnicas, o que não acontecerá com Querubim Lapa, cuja preparação técnica de base foi bastante completa. Em 1955, é convidado por Lino António, seu antigo professor, a colaborar na realização dos painéis da Via-Sacra, para a colunata do Santuário de Fátima, executados na Viúva Lamego, também com a colaboração de Manuel Cargaleiro. Este trabalho revela-se fundamental para a consolidação de conhecimentos técnicos, como o domínio da densidade dos vidrados ou das temperaturas e tempos de cozedura

Querubim Lapa na sua oficina na Fábrica Viúva Lamego, Palma de Baixo, Lisboa, 1963. ©CEQL

Querubim Lapa com busto de Mário-Henrique Leiria, prova de final de curso, 1953. ©CEQL

Inicia a sua colaboração com o arquiteto Francisco Conceição Silva (1922-1982), executando os azulejos para a fachada dos Armazéns do Minho, em Moçâmedes (atual Namibe), Angola. Nesse mesmo ano executa as primeiras experiências em esmalte sobre cobre. Visitando as oficinas de gravação e esmaltagem de condecorações, na Baixa lisboeta, de modo a adquirir conhecimentos técnicos, inicia um processo de experimentação com fragmentos de vidro, obtendo relevos e expressivos efeitos plásticos. No ano seguinte, aprofunda a colaboração com Conceição Silva, concebendo a moldura de porta para a loja Rampa, a sua primeira obra cerâmica tridimensional para arquitectura e elemento estrutural do projeto. Também nesse ano, colabora novamente com Pires Martins, concebendo os painéis azulejares da Escola Primária de Campolide (atual Escola Básica Mestre Querubim Lapa), projeto de traçado moderno, prevendo intervenções artísticas de raiz.